23 de mar de 2011

“Quando você cresce, seu coração morre”

Hoje estarei postando um artigo muito interessante (pelo menos eu o achei, e até, parecido com as angustias que batem em meu coração vez ou outra), da autora Alessandra Castro, colunista do Imirante.com. Fala de como a gente vai perdendo a nossa infância aos poucos, chegando na vida adulta somente com algumas poucas lembranças desse tempo que passa rápido. Pessoalmente, sinto uma saudade enorme dos meus tempos de criança, de toda a inocencia que nos envolve quando pequeninos, da nossa maneira de enxergar esse mundo, que aos poucos vai se mostrando tão cruel. Eu ainda não tinha encontrado um texto que descreve esse sentimento... e eis aqui a íntegra do mesmo:

"E eis que em poucas semanas eu completo 25 anos. Isso mesmo caro leitores, um quarto de século, vinte e cinco primaveras e todas essas besteiras do tipo. Como me sinto? Ultrajada acho que é a palavra.
Não, na verdade creio que insultada se adéqua bem melhor para definir meus sentimentos. E sabem o porquê disso? Por que de repente eu me toquei que está passando tudo rápido demais.
Parece que foi ontem em que eu acordava empolgada para chegar ao primeiro dia de aula e dar de cara com rostos novos na sala. Parece que foi antes de ontem que eu saía logo após o almoço com o sol a pino com minha vira lata ao lado explorando terrenos baldios imaginando que na verdade eu era uma grande arqueóloga em meu campo de pesquisa. Parece que não faz nem uma semana quando prometi ao meu amigo que iríamos juntos achar a Atlântida e colher o lucro disso.  Parece que faz um mês em que eu penteei os cabelos dentro da igreja, durante um trabalho do colégio sobre os vitrais e após levar bronca do padre pelo ato perguntei para ele se Jesus por acaso andava descabelado por aí. Parece, mas não faz.

Nem dias, nem semanas e nem meses. Todos os momentos acima citados são coisa de anos passados. Insultada, sim, é como eu me encontro agora, pois por incrível que pareça ninguém me disse que isso ia acontecer, que de repente eu ia acordar e dar de cara no espelho com alguém completamente diferente. Claro que não estou dando uma de vítima aqui.
É lógico que todo mundo passa por isso e sinceramente me surpreende que o ser humano continue funcionando após sair de cada etapa da vida, principalmente uma tão importante como a infância. Digo funcionar porque em cada período de desenvolvimento nós vivemos intensamente o que está ao nosso redor. Aquela é a nossa realidade e o futuro é algo teórico. Existe um senso de ordem nas coisas e quando passamos por uma mudança como atingir a adolescência ou a fase adulta, essa transformação mesmo que não seja bruta tira do eixo as percepções que ali estavam.
Preocupações, crenças, sonhos, anseios, gostos… Todos estes ingredientes que tornam um ser em humano são modificados. Não violentamente, mas machuca e espanta do mesmo jeito. Creio que acontece pela troca de peso por assim dizer. É como se em todas as fases da vida você ganhasse um novo acessório para carregar suas coisas.
Quando criança, uma lancheira. Lá você coloca a sua fé nas fábulas, seu desejo por brinquedos, sua preocupação com fantasmas, seu gosto pelo ar livre e doces. Na adolescência o compartimento torna-se uma mochila no qual você joga lá dentro seu nervosismo com o sexo oposto, sua confiança em Deus, seus planos de ser muito rico e sair de casa aos 23, sua ambição em ganhar um carro ao passar no vestibular,  sua vontade de ouvir rock and roll em alto e bom som. Aí você é finalmente adulto e passa a usar uma mala, como eu disse, mais pesada, mais grossa, mais chata de carregar.
Na mala cabe mais coisas e olha só isso, o compartimento das preocupações é o maior de todos. Dinheiro, dívidas, família, relacionamento, carreira, amizade, aparência e dinheiro de novo. São apenas alguns dos vários elementos que se encontram neste cômodo. O resto tal como os sonhos e as crenças ainda persistem, mas às vezes ficam esquecidos. Em algum local dentro da mala, acumulando poeira e comidos pelo tempo.
O ruim é que achamos difícil aceitar isso e sempre queremos olhar para trás, mesmo que isso não leve a nada, mesmo que você na verdade não consiga totalmente, pelo simples fato de que não é mais capaz. Nós vamos embora e partimos rapidamente.
O que sobra são lembranças. Vemos fantasmas pequenos assistindo desenhos animados e comendo biscoito com suco em uma tarde ensolarada. Enxergamos esses espíritos baixinhos com os joelhos ralados e correndo de um lado para o outro em um jogo de queimada. Testemunhamos essas aparições ‘ficarem de mau’ com seus amiguinhos para depois resolverem tudo da forma mais simples possível.
É inevitável olhar para trás, mas nem é tão necessário assim. Na nossa mente nós sempre vamos amar essas crianças, sempre.  A criança que existiu e que um dia foi o repositório de tudo que poderíamos ter nos transformado não será esquecida.
Mas se eu pudesse realmente ficar frente a frente comigo eu diria para afastar-me. Afastar-me dos carros em alta velocidade, das pessoas estranhas, do vento frio inexplicável, dos objetos pontiagudos, das tomadas, do tempo.  Diria para se afastar e pediria para essa Alessandra menor sair andando com um sorriso no rosto, com uma boa melodia na cabeça e algumas guloseimas no bolso.
Falaria para ela seguir adiante, ao encontro de tudo quanto existe na vida, com toda a coragem que puder encontrar, toda a crença que puder convocar. Explicaria que é preciso ser forte, franca, ousada e que enfrente o que está por vir aproveitando cada instante. Porque vai  passar rápido menina. Malditamente rápido."

Fonte: http://colunas.imirante.com/platb/alessandracastro/

0 comentários:

Postar um comentário

Sejam bem-vindos ao Blog Fran23! Deixem seus comentários, sugestões ou dúvidas aqui! Até mais!